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Oficina aborda equidade racial e saúde para profissionais que atuam em unidades prisionais femininas de Guaíba e Porto Alegre

Práticas integram o Projeto Saúde Prisional Antirracista e o Plano Pena Justa e buscam qualificar o cuidado às mulheres apenadas

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Atividades estão alinhadas ao Plano Pena Justa e ao Dia Nacional de Mobilização Pró-Saúde da População Negra - Foto: Gabriel Centeno/Ascom SSPS
Por Andréia Moreno/Ascom SSPS

Cerca de 60 profissionais que atuam em estabelecimentos prisionais femininos do Rio Grande do Sul participaram de atividades do Projeto Saúde Prisional Antirracista, promovidas pela Secretaria de Sistemas Penal e Socioeducativo (SSPS) e pela Secretaria Estadual da Saúde (SES/RS), em articulação com a Polícia Penal (PP/RS) e a Secretaria Municipal de Saúde de Porto Alegre (SMS/POA). A iniciativa tem como objetivo fomentar a reflexão sobre o racismo e as desigualdades étnico-raciais no contexto prisional, além de identificar desafios e possibilidades para incorporar práticas equitativas à organização e à oferta de cuidados em saúde às mulheres privadas de liberdade (MPLs).

As atividades, que estão alinhadas ao Plano Pena Justa e em consonância ao Dia Nacional de Mobilização Pró-Saúde da População Negra, celebrado em 27 de outubro, foram realizadas na Penitenciária Estadual Feminina de Guaíba (PEFG), na segunda-feira (26/10), para a Equipe de Avaliação e Acompanhamento de Medidas Terapêuticas Aplicáveis à Pessoa com Transtorno Mental em Conflito com a Lei (EAP-Desinsti), responsável pelos leitos prisionais, e no Presídio Estadual Feminino Madre Pelletier (PEFMP), em Porto Alegre, na terça-feira (27/10), para funcionários do Hospital Materno Infantil Presidente Vargas e da Unidade Básica de Saúde Bananeiras.

Com carga horária de seis horas, as oficinas adotaram uma metodologia participativa, baseada na valorização das experiências dos profissionais e na identificação de situações, barreiras e oportunidades de aprimoramento dos processos de trabalho. 

A condução das atividades contou com o assessoramento do Departamento de Políticas Penais (DPP), da SSPS, e da Divisão de Atenção às Mulheres e Grupos Específicos (Diamge), vinculada ao Departamento Técnico e de Tratamento Penal (DTTP) da PP/RS. Participaram, igualmente, as áreas técnicas de Saúde da População Negra e Quilombola e de Saúde Prisional, as áreas de Saúde da Mulher e do Primeira Infância Melhor (PIM), da SES/RS, que atuam na promoção da equidade e na atenção a grupos em situação de maior vulnerabilidade social no âmbito do Sistema Único de Saúde (SUS). Ademais, a proposta prevê a ampliação das atividades para estabelecimentos prisionais masculinos e mistos.

As oficinas também foram destinadas a trabalhadores das equipes de saúde prisional, analistas e policiais penais, assim como trabalhadores do Hospital Regional Nelson Cornetet, de Guaíba. A programação contou com a participação da médica de Família e Comunidade Andreia Beatriz dos Santos, mestre em Saúde Coletiva, doutoranda em Saúde Pública pela Universidade Federal da Bahia (UFBA) e professora da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS). A profissional possui ampla experiência nas áreas de saúde no sistema prisional e saúde da população negra.

Para Andreia, os indicadores sociais evidenciam que pessoas pretas, pardas e quilombolas representam a maioria da população prisional gaúcha. Nesse contexto, iniciativas como essa buscam mitigar desigualdades e promover o reconhecimento das especificidades culturais. “O racismo é um determinante dos processos de saúde, adoecimento e morte. Dar visibilidade e nomear práticas muitas vezes naturalizadas é fundamental para combater desigualdades e garantir o direito à vida da população negra”, destacou.

Já para a presidente do Comitê Estadual de Atenção às Políticas Públicas para Mulheres Privadas de Liberdade e Egressas, Débora Ferreira, a cooperação entre as instituições e a qualificação permanente dos profissionais são essenciais para consolidar práticas antirracistas, ampliar o acesso aos serviços de saúde e assegurar a dignidade e os direitos dessa população. “Construir um sistema prisional mais justo e inclusivo passa, necessariamente, pela implementação de ações governamentais que considerem as especificidades das MPLs e enfrentem as desigualdades raciais e sociais", reiterou. 

Políticas de equidade e atenção integral

As áreas técnicas de Saúde da População Negra e Quilombola e de Saúde Prisional atuam na implementação de políticas públicas voltadas à garantia do direito à saúde e à redução das desigualdades. Entre suas referências estão a Política Nacional de Saúde Integral da População Negra (PNSIPN), instituída pela Portaria nº 992/2009, e a Política Nacional de Saúde Integral da População Quilombola (PNASQ), voltadas à promoção da equidade e ao enfrentamento do racismo institucional como determinante social da saúde.

No sistema prisional, a garantia da atenção integral às pessoas privadas de liberdade ocorre por meio das equipes de Atenção Primária Prisional (eAPP), integradas às Redes de Atenção à Saúde (RAS) do SUS, com o propósito de assegurar o acesso aos serviços de saúde e a continuidade do cuidado.

A presidente da Comissão Permanente de Elaboração, Monitoramento e Implementação da Política Penal de Enfrentamento ao Racismo no Âmbito do Sistema Prisional, Márcia Lemos, destacou a importância da qualificação das práticas profissionais e do fortalecimento das diretrizes estatais para assegurar às mulheres custodiadas um atendimento humanizado, integral e comprometido com a promoção da equidade e do enfrentamento ao racismo. “As ações de promoção exigem o reconhecimento das desigualdades históricas e institucionais que impactam o acesso à saúde. Iniciativas como o Projeto Saúde Prisional Antirracista são fundamentais para ampliar o debate e qualificar os profissionais para uma atuação mais consciente e comprometida com essa temática”, afirmou.

Plano Pena Justa

Instituído em cumprimento à Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF) 347, do Supremo Tribunal Federal (STF), o Plano Pena Justa é coordenado pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ) e pelo Ministério da Justiça e Segurança Pública (MJSP) e busca superar o Estado de Coisas Inconstitucional no sistema prisional brasileiro.

Nesse contexto, a promoção da saúde prisional integra o Eixo 2, enquanto o enfrentamento ao racismo institucional constitui uma dimensão estruturante e transversal da iniciativa.

Entre as ações desenvolvidas, destacam-se as oficinas voltadas aos profissionais que atuam em unidades prisionais femininas, com foco na reflexão sobre equidade racial e saúde. As atividades contribuem para o aprimoramento das práticas profissionais e para a efetivação dos direitos das MPLs.

Para a chefe da Diamge, Carolina Reis, as oficinas representam um importante espaço de reflexão e qualificação dos profissionais, especialmente no que diz respeito à promoção da saúde e ao enfrentamento do racismo institucional. “Ao incorporar a equidade racial às práticas cotidianas, fortalecemos uma atuação mais consciente, humanizada e comprometida com a garantia de direitos das MPLs. Essas iniciativas estão alinhadas aos objetivos do Plano Pena Justa e contribuem para o aprimoramento da atenção à população prisional feminina, respeitando suas especificidades e promovendo a dignidade humana”, concluiu. 

Polícia Penal